Uma das coisas que mais me impressionam é a frequente associação entre o desapego e a iluminação. Não estou escrevendo aqui, obviamente, para negar a possível relação, pelo contrário. Na verdade eu me dei conta que este conceito, embora certamente não universal, parece permear a vasta maioria das culturas, sejam elas ocidentais ou orientais.
Talvez as coisas ocorram desta forma pela possível inevitabilidade da morte, uma situação em que, aparentemente, nós "vamos" e tudo que temos de "físico" fica para trás; assim, para que a paz nos tome, é necessário que tenhamos nos desapegado desta vida para que possamos partir para uma próxima etapa. A decorrência disso seria que quanto maior o desapego em vida, mais simples a transição trazida pela morte.
Não tão curiosamente, muitas instituições usam o princípio do desapego, associado ao princípio discutível do merecimento, para o controle das massas, que vivem em situações precárias diante e uma pequena elite que possui tudo do bom e do melhor. Cria-se uma espécie de droga calmante para convencer todo um povo explorado de que, por estarem privados daquilo que poderiam (ou até mesmo deveriam) desfrutar, eles estão em uma posição mais elevada perante a justiça suprema do universo, seja ela qual for.
É claro que isso não é universal. De cara me vem em mente a cultura religiosa do Egito antigo, em que se preservava até mesmo o corpo do faraó, pois ele um dia voltaria. Esse tipo de preservação pode ser um símbolo de que o desapego não era valorizado naquela cultura. Certamente, por se tratar de uma sociedade escravocrata, mantinham um controle diferenciado de suas massas.
Entretanto, eu acredito que a Iluminação advenha não do exercício do desapego físico1, mas do exercício do desapego de idéias, de concepções. O desapego material seria apenas uma decorrência.
A forma do desapego permitir a iluminação2, neste contexto, seria a compreensão de que, talvez, a realidade seja muito mais complexa do que podemos apreender. Desta maneira, a iluminação é justamente o processo pelo qual passamos a ver e nos conscientizar de que não há apenas uma verdade, não há caminhos únicos, não há apenas um certo e apenas um errado.
Onde está a dificuldade nisso?
Bem, a começar do fato que somos apegados por natureza3, o desapego exige aprendizado. Entretanto, a maneira com que compomos a nossa personalidade, a forma com que criamos o nosso mapa mental, acaba por cristalizar muitos conceitos que, a partir de certo ponto, tornam-se, para nós, quase indiscutíveis ou imutáveis.
Este processo, que costumo chamar de "ficar velho", enrijece nossas estruturas de aprendizado e dificulta a absorção de novos fatos. Temos tantas teorias prontas que passamos, muitas vezes, a rejeitar fatos porque não se encaixam em nossas teorias e conceitos, que nos trazem tanto conforto.
Alguns podem dizer: "Ah, eu não sou assim. Eu vivo na emoção, não penso muito, eu sinto e faço", mas até isso é resultado de uma estrutura consolidada que, por uma razão ou outra, traz conforto àquele indivíduo, isto é, ele acredita que esta é a forma correta de agir e isso faz com que ele tenha uma certeza absoluta sobre suas atitudes. Entretanto, ele tem tanta dificuldade em aceitar qualquer tipo de fato que desabone sua postura quanto o indivíduo que é, no conceito popular, todo regrado e metódico.
No fundo, temo que a idade e o excesso de "coisas que já sabemos" nos tornem cada vez mais obsessivos e compulsivos para cada vez mais agir sempre da mesma forma, e nos tornamos "velhos cheios de manias".
Para mim, ceder a essa "pressão do tempo" é permitir que os anos nos apaguem. É importante sermos críticos, pois o mundo está cheio de informações duvidosas, mas é importante ter em mente que nossa crítica é baseada em um mapa mental que pode estar bastante equivocado! É preciso examinar os fatos através de diversas perspectivas, vez ou outra deixando de lado todas aquelas coisas profundamente arraigadas em nosso jeito de ser e de pensar.
O excesso de "certezas" acaba com as chances de que o mundo ou as pessoas nos surpreendam, ao menos da forma positiva. Com certezas demais, as eventuais surpresas se tornam aborrecimentos, pois foram fatos que não seguiram a lógica das certezas. Só somos capazes de nos surpreender enquanto ainda aceitamos que podemos estar equivocados.
Sei que é desafiante preservar a capacidade de se surpreender com o mundo, mas talvez seja esse o caminho.
Ser iluminado, no fim das contas, não significa saber tudo.
Ser iluminado significa estar aberto para tudo4.
(1) Até porque eu não acredito que o mundo seja, de fato, "material", como se costuma dizer.
(2) Note: permitir a iluminação e não trazer a iluminação. Tem uma diferença bem grande aí.
(3) Observem uma criança muito pequena com sua mãe.
(4) Nada disso significa que não se deve ser crítico; ser crítico não é ruim, ruim é não saber reconhecer quando se torna necessário mudar os próprios conceitos.







